Elas foram desenhistas de mapas, caminhoneiras, professoras, enfermeiras, agricultoras, cozinheiras, servidoras da Novacap, assistentes sociais, comerciantes e mães que enfrentaram a poeira, a falta de água e luz e ajudaram a transformar um canteiro de obras em cidade

Quando se fala na construção de Brasília, alguns nomes aparecem imediatamente.
Juscelino Kubitschek.
Lúcio Costa.
Oscar Niemeyer.
Israel Pinheiro.
Bernardo Sayão.
E os milhares de candangos que trabalharam nos canteiros de obras.
Mas existe uma outra Brasília que aparece muito menos nos livros.
Uma Brasília contada por mulheres.
Mulheres que chegaram ao Planalto Central quando ainda havia barro, poeira, barracos de madeira, estradas precárias e enormes áreas de Cerrado.
Algumas trabalharam diretamente para a construção da nova capital. Outras cuidaram dos trabalhadores, ensinaram seus filhos, cozinharam, lavaram roupas, atenderam doentes, trabalharam na Novacap, abriram estabelecimentos comerciais, dirigiram caminhões e ajudaram a criar os primeiros serviços sociais da cidade.
E algumas simplesmente chegaram com suas famílias e tiveram que construir uma vida onde praticamente tudo ainda precisava ser criado.
A Universidade de Brasília reúne uma das pesquisas mais importantes sobre esse tema: a tese de doutorado de Tânia Maria Fontenele Mourão, intitulada “Memórias femininas da construção de Brasília”, baseada nas narrativas de mulheres que chegaram à região entre 1957 e 1960. O estudo destaca profissões como lavadeiras, professoras, cozinheiras, funcionárias públicas, caminhoneiras, engenheiras e parteiras.
O projeto que deu origem ao documentário “Poeira e Batom no Planalto Central” reuniu depoimentos de 50 mulheres.
E essas histórias mudam a maneira de olhar para Brasília.
🗺️ MERCEDES RIBAS PARADA: A MULHER QUE AJUDOU A DESENHAR O DISTRITO FEDERAL
Talvez uma das histórias mais simbólicas seja a de Mercedes Ribas Parada.
Ela chegou ao Planalto Central acompanhando o marido, o engenheiro Joffre Mozart Parada.
Mas Mercedes não ficou apenas como acompanhante.
Ela trabalhou diretamente na elaboração dos mapas utilizados para identificar fazendas e áreas que seriam desapropriadas para a implantação do Distrito Federal.
Em outras palavras: ajudou a colocar no papel os limites territoriais da nova capital.
O Arquivo Público do DF preserva, inclusive, um mapa de 1958 atribuído a Mercedes Parada. O documento é identificado como o “1º Mapa do Distrito Federal elaborado pela Comissão de Cooperação para Mudança da Capital Federal”.
O problema é que seu nome não aparece da mesma maneira que os nomes masculinos ligados ao trabalho.
Uma reportagem do Senado sobre a invisibilidade feminina na história de Brasília destaca justamente esse episódio: os registros do mapa mencionavam responsáveis e auxiliares, mas não davam a Mercedes o reconhecimento correspondente ao trabalho que realizou.
Pesquisas posteriores reforçaram a participação dela na elaboração dos mapas das áreas que seriam desapropriadas.
Mercedes resumiu sua experiência em uma frase registrada na pesquisa de Tânia Fontenele:
“Ser mulher no meio da poeira da construção de Brasília me fazia ainda mais forte.”
🚚 TIA NEIVA: UMA CAMINHONEIRA NO MEIO DOS CANDANGOS
Antes de ficar conhecida nacionalmente como Tia Neiva, Neiva Chaves Zelaya já tinha uma trajetória incomum.
Viúva e mãe de quatro filhos, ela havia trabalhado como motorista de ônibus, fotógrafa, agricultora e costureira.
Quando chegou a Brasília, em 1957, foi trabalhar como caminhoneira ligada à Novacap.
Transportava trabalhadores e materiais para as obras.
O próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em seu inventário sobre o Vale do Amanhecer, registra que Neiva retomou em Brasília sua atividade como motorista de caminhão e recebeu uma ficha da Novacap.
Relatos sobre sua trajetória registram que ela dirigia pelas estradas precárias do período e levava trabalhadores para os canteiros.
O fato chama atenção porque dirigir caminhão naquele período já era uma atividade predominantemente masculina.
E Neiva fazia isso enquanto criava os filhos.
Décadas depois, ela se tornaria a fundadora do Vale do Amanhecer, em Planaltina, mas sua história em Brasília começou muito antes, atrás do volante de um caminhão da Novacap.
🏥 IRMÃ OLGA: A MULHER QUE AJUDOU A CUIDAR DOS CANDANGOS
Enquanto máquinas, tratores e caminhões avançavam sobre o Cerrado, outra batalha acontecia longe das fotografias dos grandes edifícios.
A batalha pela sobrevivência de quem estava construindo a cidade.
Irmã Olga do Nascimento Monteiro chegou a Brasília em 1957.
Formada em Serviço Social, trabalhou ligada às Pioneiras Sociais e passou a atuar diretamente junto às famílias que viviam nos acampamentos e na Cidade Livre.
Ela ajudou a organizar atendimento social e de saúde.
Entre as iniciativas registradas em depoimentos históricos estão um hospital volante, um posto de puericultura e um lactário na Candangolândia.
A situação encontrada era de extrema precariedade.
Famílias chegavam em busca de trabalho sem documentos, com poucos recursos e enfrentando doenças e falta de estrutura.
O trabalho das Pioneiras Sociais procurava responder justamente a essas necessidades.
Irmã Olga também participou da organização profissional do Serviço Social em Brasília e posteriormente esteve ligada à criação e desenvolvimento da formação na área no Distrito Federal.
📚 MARIA MARTA CINTRA: A PROFESSORA QUE ALFABETIZOU OS CONSTRUTORES
Brasília precisava de professores tanto quanto precisava de engenheiros.
Maria Marta Cintra chegou à capital em 1960 e foi aprovada no primeiro concurso da Secretaria de Educação do Distrito Federal.
Ela trabalhou inicialmente em uma escola de acampamento e participou do grupo de professoras que deram as primeiras aulas na escola-classe da 106 Sul.
Seu trabalho também alcançou os próprios trabalhadores que construíam a cidade.
Maria Marta atuou na chamada escola dos candangos, alfabetizando trabalhadores.
Mais tarde, participou da organização profissional dos professores do Distrito Federal.
A Câmara Legislativa registra sua trajetória como professora pioneira e sua atuação na criação da Associação Profissional dos Professores do DF.
Na pesquisa de Tânia Fontenele, Maria Marta deixou uma frase que sintetiza o espírito daquela geração:
“Nós mulheres estávamos fazendo a revolução na Brasília de 1960.”
🩺 HILDA RIBEIRO DA SILVA: ENFERMAGEM NO MEIO DA POEIRA
Outra personagem resgatada pela pesquisa é Hilda Ribeiro da Silva, enfermeira pioneira.
Sua presença representa uma dimensão fundamental da construção de uma cidade: cuidar das pessoas.
Enquanto milhares de trabalhadores chegavam aos canteiros, era necessário criar uma estrutura de saúde capaz de atender acidentes, doenças, gestantes, crianças e famílias.
Hilda aparece entre as mulheres entrevistadas no projeto de Tânia Fontenele e deixou registrada uma frase que revela como percebia sua experiência:
“Eu nunca senti dificuldade em ser mulher.”
Documentos oficiais posteriores também registram sua carreira na área de enfermagem da rede pública do Distrito Federal.
🏠 CORACY UCHÔA PINHEIRO: A “CANDANGA Nº 1”
A história de Coracy Uchôa Pinheiro começa ainda antes da inauguração.
Quando Israel Pinheiro assumiu a presidência da Novacap, Coracy foi morar com ele no Catetinho.
A Folha de S.Paulo registrou que ela preparava comida para os engenheiros e recebia visitantes oficiais, além de atuar no cotidiano daquela pequena comunidade que começava a nascer.
Por isso, ficou conhecida como “Candanga nº 1”.
Mas sua atuação não ficou restrita à vida doméstica.
Coracy teve participação importante nas ações sociais das Pioneiras Sociais e atuou como uma ponte entre os trabalhadores e a direção da Novacap.
Pesquisas históricas relatam que os candangos procuravam Coracy para levar reivindicações até Israel Pinheiro.
Ela também participou, ao lado de Sarah Kubitschek, da organização das Pioneiras Sociais em Brasília.
E existe uma curiosidade impressionante: quando a Catedral de Brasília ainda precisava de recursos para avançar, Coracy e Hilda Sayão participaram de uma comissão destinada a arrecadar doações para a construção.
❤️ SARAH KUBITSCHEK: AS PIONEIRAS SOCIAIS
Se a construção de uma cidade depende de concreto, máquinas e trabalhadores, ela também depende de saúde, educação e assistência.
Nesse campo, Sarah Kubitschek teve papel central.
Em 1956, ela formalizou a Fundação das Pioneiras Sociais, organização que já vinha sendo construída a partir de iniciativas de assistência em Minas Gerais.
A instituição passou a atuar em diferentes estados e desenvolveu ações voltadas à assistência médica e educacional.
Em Brasília, essas iniciativas chegaram aos acampamentos dos trabalhadores.
O Arquivo Público do DF preserva imagens de hospitais volantes, lactários e estruturas de atendimento das Pioneiras Sociais entre 1957 e 1960.
A atuação feminina, portanto, não estava apenas nos canteiros.
Estava também criando as condições para que uma população pudesse viver ali.
👩🔧 ZENI MOREIRA: A MULHER QUE CHEGOU PARA TRABALHAR NA NOVACAP
Zeni Moreira chegou a Brasília em 1958 e tornou-se funcionária da Novacap.
Seu depoimento faz parte da pesquisa de Tânia Fontenele.
Ela contou que chegou de avião, vindo de Macapá, e que, ao sobrevoar Brasília, ouviu que aquele território seria a futura capital do Brasil.
A imagem que encontrou do alto era muito diferente da cidade que conhecemos hoje: terra, estruturas ainda incompletas e os primeiros sinais do enorme canteiro de obras.
Zeni também aparece em estudos sobre a presença feminina na Novacap e no cotidiano dos primeiros anos da cidade.
🧵 WALNÍZIA ALVES DOS SANTOS: UMA MENINA QUE APRENDEU A TRABALHAR NA LUZ DAS LAMPARINAS
Walnízia Alves dos Santos chegou a Brasília em 1957, ainda criança.
Sua família começou a construir a vida na nova capital trabalhando.
A mãe era costureira, e as primeiras freguesas eram mulheres ligadas a funcionários que haviam chegado a Brasília.
Walnízia aprendeu a costurar ainda menina.
A iluminação da casa era feita com lamparinas.
Ela contou que acompanhava a mãe no trabalho e chegava a trabalhar até tarde da noite.
É uma história importante porque mostra que a construção de Brasília não foi vivida somente pelos adultos que apareciam nos canteiros.
Havia meninas crescendo dentro daquele processo.
Crianças que aprenderam profissões, ajudaram suas famílias e construíram suas próprias memórias da cidade.
🌾 FUMIKO KANNEGAE: A MULHER QUE AJUDOU A ALIMENTAR A NOVA CAPITAL
Quando se fala em construir Brasília, normalmente pensamos em prédios.
Mas uma cidade também precisa comer.
Fumiko Kannegae foi uma agricultora integrante de uma das primeiras famílias japonesas convidadas para participar da implantação do cinturão verde da nova capital.
Ela foi uma das quatro mulheres homenageadas simbolicamente no projeto “Poeira & Batom”, ao lado de Irmã Olga, Guiomar de Arruda Câmara e Tia Neiva.
A presença de famílias agricultoras mostra que a formação de Brasília não acontecia apenas no Plano Piloto.
Existia também uma estrutura de produção de alimentos que ajudava a sustentar a população que crescia rapidamente.
🗺️ GUIOMAR DE ARRUDA CÂMARA: ANTES MESMO DE BRASÍLIA EXISTIR
A história de Guiomar de Arruda Câmara começa antes da construção propriamente dita.
Ela integrou a Comissão Poli Coelho, responsável pelos estudos e trabalhos de demarcação relacionados ao local escolhido para a nova capital.
Um decreto do Governo do Distrito Federal, publicado após sua morte, registrou oficialmente sua participação nos trabalhos da Comissão e a reconheceu como pioneira de Brasília.
Por isso, sua história mostra que a participação feminina na construção da capital não começou em 1957.
Havia mulheres envolvidas na própria trajetória que levou à definição do território onde Brasília seria construída.
🍽️ MARIA DE LOURDES JUNQUEIRA: COMIDA PARA UMA CIDADE EM CONSTRUÇÃO
Nem todo pioneiro estava dentro de um escritório da Novacap.
A cidade precisava de lugares para comer.
O Arquivo Público também preservou nomes de mulheres ligadas aos primeiros serviços e atividades comerciais da Cidade Livre.
Entre elas está Maria de Lourdes Junqueira, proprietária de um dos primeiros restaurantes do Núcleo Bandeirante, o Serra Azul.
O comércio foi uma das engrenagens que transformaram os acampamentos de trabalhadores em comunidades.
Restaurantes, pensões, costureiras, comerciantes, cozinheiras e outros serviços criavam uma estrutura cotidiana em torno dos canteiros.
🎵 MARIA DE LOURDES CRUVINEL BRANDÃO: A PRIMEIRA PROFESSORA DE MÚSICA
A cultura também precisava nascer junto com a cidade.
Entre as pioneiras catalogadas pelo Arquivo Público está Maria de Lourdes Cruvinel Brandão, identificada como a primeira professora de música de Brasília.
Sua trajetória ajuda a mostrar que a construção da capital não era apenas uma corrida contra o relógio para erguer ministérios, palácios e superquadras.
Enquanto os edifícios subiam, uma sociedade também estava sendo formada.
E essa sociedade precisava de escola, música, arte, educação e convivência.
👩⚕️ MARIA DE LOURDES LOPES CUNHA: FORMANDO PROFISSIONAIS DE ENFERMAGEM
Outra personagem registrada pelo Arquivo Público é Maria de Lourdes Lopes Cunha, identificada como fundadora da Escola de Auxiliar de Enfermagem de Brasília.
Sua trajetória representa outro aspecto essencial da consolidação da capital: formar profissionais para cuidar da população que chegava.
Brasília precisava construir hospitais.
Mas precisava, principalmente, construir uma rede de pessoas preparadas para trabalhar neles.
👩🏫 MARIA DA GLÓRIA FREITAS QUINTELA: EDUCAÇÃO E RELIGIÃO
O levantamento do Arquivo Público também registra Maria da Glória Freitas Quintela, conhecida como Irmã Celina, como religiosa e professora.
Mais uma vez, aparece uma característica comum nas histórias femininas daquele período:
uma mesma mulher podia exercer diferentes funções dentro da comunidade.
Ensinar.
Cuidar.
Organizar.
Acolher.
Participar da formação social da nova cidade.
🍲 DONA CHIQUINHA: QUEM ALIMENTAVA AS CRIANÇAS
Entre os nomes preservados pelo Arquivo Público está também Maria Francisca Alves de Souza, a Dona Chiquinha.
Sua profissão?
Merendeira.
Ela trabalhou nas escolas Júlia Kubitschek e Zoobotânica.
Pode parecer uma função pequena diante dos grandes projetos arquitetônicos de Brasília.
Mas uma cidade não funciona apenas com grandes obras.
Ela precisa alimentar suas crianças.
E precisa de mulheres dispostas a realizar esse trabalho todos os dias.
👩🏫 AS PROFESSORAS QUE CHEGARAM PARA CRIAR UMA ESCOLA
A lista de educadoras pioneiras é extensa.
Pesquisas sobre a educação pública do Distrito Federal entre 1956 e 1964 registram nomes como Alayde do Vale Dourado, Alita Vieira, Amábile Andrade Gomes, Beatriz Mendes Chaves Ros, Branca Luisa Tamm Rabello, Clelia de Freitas Capanema, Cosete Martins Ramos, Dalva Batista Obliziner, Elmira Hermano Wehke, Ivonilde Morrone, Leocádia Paradella Cardoso, Lia Sayão Araújo Sá, Libânia Rabelo Ferreira, Lydia Garcia, Maria das Neves Costa Morici, Maria de Lourdes Cruvinel Brandão, Maria do Rosário Ávila de Bessa, Maria do Socorro de Matos Pereira, Maria Marta Cintra, Maria Reis Canêdo, Marilda Guimarães Mundim, Myrtes Cardoso, Natanry Ludovico Lacerda Osório, Olinda Rocha Lobo, Renée Gunzberger Simas, Santa Alves Soyer e Stella dos Cherubins Guimarães Trois.
Cada uma dessas mulheres participou, de diferentes maneiras, da experiência educacional que estava sendo implantada na nova capital.
E isso significa que uma geração de crianças começou a aprender em Brasília enquanto a própria cidade ainda estava aprendendo a funcionar.
👩🌾 OUTRAS PIONEIRAS PRESERVADAS PELO ARQUIVO PÚBLICO
O calendário de pioneiras produzido a partir de acervos do Arquivo Público do DF registra ainda outros nomes e funções que ajudam a dimensionar a participação feminina:
Cosete Ramos Gebrim — líder estudantil.
Ecilda Ramos de Sousa — professora emérita.
Eleonora Morandi Quadroa de Santana — engenheira.
Elza Motta Nardelli — ligada ao Movimento das Bandeirantes do Brasil.
Florinda Take Yabushita Ofugi — agricultora da colônia japonesa.
Leo Tigre Peter, a Mãe Preta — professora e fundadora da Creche Mãe Preta.
Maria das Dores Chagas — servidora da Novacap.
Maria de Lourdes Cruvinel Brandão — professora de música.
Maria de Lourdes Junqueira — comerciante e proprietária de restaurante na Cidade Livre.
Maria de Lourdes Lopes Cunha — fundadora da Escola de Auxiliar de Enfermagem de Brasília.
Maria Francisca Alves de Souza, Dona Chiquinha — merendeira.
Esses nomes fazem parte de um universo muito maior do que a narrativa tradicional costuma apresentar.
🌎 MERCEDES URQUIZA: A ARGENTINA QUE CHEGOU DE JIPE
Outra personagem extraordinária é Mercedes Urquiza.
Argentina, ela saiu de Buenos Aires em 1957 em direção ao Planalto Central.
A viagem de jipe durou 48 dias.
Ela chegou quando Brasília ainda era uma imensa obra no meio do Cerrado.
Sua trajetória não ficou apenas na memória pessoal.
Mercedes ajudou o fotógrafo sueco Åke Borglund a circular pela região e participou da produção de um registro fotográfico que chegou a cerca de 800 imagens da Brasília em construção.
Essas fotografias se transformariam posteriormente em um importante registro visual daquele momento histórico.
Mercedes também se tornou jornalista e continuou contando histórias da capital.
👩🍼 AS MULHERES QUE LAVAVAM, COZINHAVAM E CUIDAVAM DOS CANDANGOS
Existe uma parte ainda menos visível dessa história.
As mulheres que não tinham cargos importantes.
Que não assinavam projetos.
Que não apareciam nas fotografias oficiais.
As lavadeiras.
As cozinheiras.
As passadeiras.
As parteiras.
As mulheres que cuidavam das crianças.
As que mantinham as casas e os alojamentos funcionando.
A pesquisa de Tânia Fontenele documentou mulheres que exerceram exatamente essas atividades e viveram em condições precárias, muitas vezes em casas de madeira ou acampamentos improvisados sem água ou energia elétrica.
Uma das histórias registradas pela pesquisadora fala de uma mulher que enfrentou uma cesariana em condições extremamente precárias, sem analgesia, revelando o tamanho das dificuldades enfrentadas pelas famílias durante aquele período.
Essas histórias ajudam a entender que “construir Brasília” significava muito mais do que levantar concreto.
Era sobreviver.
Criar filhos.
Trabalhar.
Cuidar.
Ensinar.
Alimentar.
Transportar.
Organizar.
E começar uma vida praticamente do zero.
👧 MENINAS, MÃES E FAMÍLIAS TAMBÉM FIZERAM PARTE DA CONSTRUÇÃO
Outro aspecto importante aparece nos depoimentos reunidos por pesquisadores: Brasília não foi formada somente pelos homens que chegavam sozinhos para trabalhar.
As famílias começaram a ocupar o território.
Mulheres chegaram com filhos.
Crianças nasceram nos acampamentos.
Meninas ajudaram as mães em seus trabalhos.
Famílias inteiras participaram da criação das primeiras comunidades.
O próprio censo experimental realizado em 1959 pelo IBGE mostra o forte desequilíbrio demográfico daquele período: havia cerca de 192 homens para cada 100 mulheres na população que ocupava o futuro Distrito Federal.
Isso ajuda a explicar por que as mulheres eram numericamente menores no início, mas também torna ainda mais significativa a presença daquelas que chegaram, permaneceram e construíram suas vidas na nova capital.
🏙️ DEPOIS DOS CANTEIROS, VEIO A CONSOLIDAÇÃO
A participação feminina não terminou em 21 de abril de 1960.
Brasília precisava continuar funcionando.
Escolas precisavam crescer.
Hospitais precisavam ser ampliados.
Serviços precisavam ser organizados.
Novas regiões administrativas surgiam.
E mulheres que chegaram nos primeiros anos continuaram participando da formação do Distrito Federal.
Um exemplo é Maria de Lourdes Abadia, que chegou com a família em 1960, ainda durante a fase de construção, e posteriormente participou de iniciativas de alfabetização de adultos, movimentos sociais e da criação de Ceilândia.
Sua trajetória mostra como a história das mulheres candangas não termina com a inauguração.
Ela continua na construção social do Distrito Federal.
🎭 “CANDANGAS PALAVRAS”: QUANDO ESSAS HISTÓRIAS VOLTAM AO PALCO
E existe um motivo especial para essa reportagem ser publicada agora.
Começa nesta terça-feira, 29 de setembro de 2026, no Gama, o projeto “Candangas Palavras – Mulheres e Memórias Capitais”.
A proposta transforma histórias de mulheres presentes no acervo do Arquivo Público do Distrito Federal em performances teatrais.
O projeto utiliza entrevistas do Programa de História Oral do Arquivo Público, além de fotografias, jornais, mapas e memórias familiares.
As performances abordam mulheres com diferentes trajetórias: empreendedoras, lavadeiras, estudantes, donas de casa, feirantes, andarilhas e outras personagens.
Também entram em cena temas como trabalho doméstico, dupla e tripla jornada, violência contra a mulher, abandono parental e conquistas de direitos.
A programação acontece no Centro Educacional 01 do Gama entre 29 de setembro e 1º de outubro e depois no Centro de Ensino Fundamental 10 do Gama, entre 7 e 9 de outubro.
A entrada é gratuita e as atividades são voltadas à comunidade escolar.
É uma coincidência poderosa:
enquanto Brasília continua contando sua história, novas gerações estão sendo convidadas a ouvir as mulheres que ajudaram a construí-la.
📜 POR QUE ESSAS MULHERES FICARAM FORA DE TANTAS NARRATIVAS?
A pesquisa acadêmica sobre o tema aponta um problema histórico.
A narrativa tradicional da construção de Brasília privilegiou personagens masculinos — presidente, arquitetos, engenheiros e operários — enquanto as experiências femininas receberam menos espaço.
A tese de Tânia Fontenele afirma que os relatos dessas mulheres ajudam a ampliar a compreensão da cidade e a apresentar uma perspectiva diferente daquela centrada apenas nos grandes monumentos.
Isso não significa que os homens não tenham sido fundamentais.
Foram.
Mas a cidade não foi construída somente por eles.
A história é maior.
E quando olhamos para ela através das mulheres, Brasília deixa de ser apenas uma obra monumental.
Passa a ser também uma história de pessoas.
❤️ BRASÍLIA FOI ERGUIDA COM CONCRETO. MAS TAMBÉM COM HISTÓRIAS.
Talvez seja impossível contar todas as mulheres que participaram da construção da capital.
São muitas.
Algumas deixaram documentos.
Outras deixaram fotografias.
Algumas gravaram depoimentos.
Muitas ficaram apenas na memória dos filhos e netos.
Mas os registros existentes permitem reconstruir uma parte dessa história.
Mercedes desenhou mapas.
Neiva dirigiu caminhões.
Olga cuidou dos trabalhadores e das famílias.
Maria Marta ensinou.
Hilda cuidou da saúde.
Coracy abriu caminhos entre os trabalhadores e a direção da Novacap.
Sarah organizou uma rede de assistência.
Fumiko ajudou na agricultura.
Guiomar participou dos estudos que antecederam a construção.
Zeni trabalhou na Novacap.
Walnízia cresceu entre costuras e lamparinas.
Maria de Lourdes levou música e enfermagem para uma cidade que ainda estava nascendo.
Dona Chiquinha alimentou crianças nas escolas.
Mercedes Urquiza registrou e contou a Brasília que quase ninguém conhecia.
E, ao lado delas, existiram dezenas de outras mulheres.
Lavadeiras.
Cozinheiras.
Professoras.
Parteiras.
Comerciantes.
Funcionárias.
Mães.
Estudantes.
Agricultoras.
Enfermeiras.
Trabalhadoras.
Mulheres comuns que fizeram coisas extraordinárias.
Talvez seja por isso que Brasília não possa ser contada apenas olhando para seus monumentos.
É preciso olhar também para quem estava atrás deles.
Porque antes de existir a capital monumental que conhecemos hoje, existiam pessoas.
E entre elas estavam milhares de mulheres.
Brasília também foi construída por elas.
👩🦱 ALGUNS DOS NOMES QUE PRECISAM SER LEMBRADOS
Além das personagens apresentadas nesta reportagem, os registros e pesquisas sobre as pioneiras preservam muitos outros nomes:
• Alayde do Vale Dourado
• Alita Vieira
• Amábile Andrade Gomes
• Beatriz Mendes Chaves Ros
• Branca Luisa Tamm Rabello
• Clelia de Freitas Capanema
• Cosete Martins Ramos
• Cosete Ramos Gebrim
• Dalva Batista Obliziner
• Ecilda Ramos de Sousa
• Eleonora Morandi Quadroa de Santana
• Elza Motta Nardelli
• Elmira Hermano Wehke
• Florinda Take Yabushita Ofugi
• Georgina Janete Câmara
• Guiomar de Arruda Câmara
• Hilda Ribeiro da Silva
• Irmã Celina
• Irmã Olga
• Leo Tigre Peter, a Mãe Preta
• Leocádia Paradella Cardoso
• Lia Sayão Araújo Sá
• Libânia Rabelo Ferreira
• Lydia Garcia
• Maria das Dores Chagas
• Maria de Lourdes Cruvinel Brandão
• Maria de Lourdes Junqueira
• Maria de Lourdes Lopes Cunha
• Maria das Neves Costa Morici
• Maria do Rosário Ávila de Bessa
• Maria do Socorro de Matos Pereira
• Maria Francisca Alves de Souza, Dona Chiquinha
• Maria Marta Cintra
• Maria Reis Canêdo
• Marilda Guimarães Mundim
• Myrtes Cardoso
• Natanry Ludovico Lacerda Osório
• Neiva Chaves Zelaya, Tia Neiva
• Olinda Rocha Lobo
• Renée Gunzberger Simas
• Santa Alves Soyer
• Stella dos Cherubins Guimarães Trois
• Walnízia Alves dos Santos
• Zeni Moreira
A lista é apenas uma parte das mulheres identificadas em diferentes pesquisas, acervos e projetos de memória.
📚 FONTES E REFERÊNCIAS
Universidade de Brasília — Repositório Institucional
Tânia Maria Fontenele Mourão, “Memórias femininas da construção de Brasília: narrativa a partir do filme Poeira e Batom”. A pesquisa analisou relatos de mulheres que chegaram entre 1957 e 1960 e documentou diferentes profissões e experiências femininas.
Arquivo Público do Distrito Federal — Programa de História Oral
Acervo de depoimentos e documentos de pioneiros e pioneiras que participaram direta ou indiretamente da construção e consolidação do DF.
Arquivo Público do DF — Acervo Fundação das Pioneiras Sociais
Fotografias e registros de hospitais volantes, lactários e ações de assistência realizadas nos primeiros anos de Brasília.
Senado Federal — Procuradoria Especial da Mulher
Registro da história de Mercedes Parada e do debate sobre a invisibilidade feminina na história da construção da capital.
Câmara Legislativa do Distrito Federal
Registros históricos sobre Mercedes Urquiza, Maria Marta Cintra e outras pioneiras.
Jornal de Brasília — Projeto Poeira & Batom
Registro das 50 mulheres pesquisadas por Tânia Fontenele e das quatro homenageadas simbolicamente: Irmã Olga, Guiomar de Arruda Câmara, Tia Neiva e Fumiko Kannegae.
Rede SARAH / Fundação das Pioneiras Sociais
História da Fundação das Pioneiras Sociais e da implantação do Centro de Reabilitação Sarah Kubitschek em Brasília.
Museu da Pessoa
Depoimento biográfico de Maria de Lourdes Abadia e sua experiência nos primeiros anos de Brasília.
Candangas Palavras — 2026
Projeto contemporâneo que transforma relatos do Arquivo Público do DF em performances sobre mulheres que participaram da construção e consolidação de Brasília.


