Antes de lanchas, clubes, restaurantes e pontes, a região era ocupada por uma vila de trabalhadores que chegou a reunir cerca de 16 mil pessoas

Hoje, o Lago Paranoá é um dos cartões-postais mais conhecidos de Brasília.
É cenário para passeios de lancha, esportes náuticos, restaurantes, clubes, pôr do sol e fotografias.
Mas existe uma história escondida sob essas águas.
Onde hoje existe o lago, já houve uma vila inteira de trabalhadores.
Era a Vila Amaury, um dos muitos acampamentos formados durante a construção da nova capital.
E quando as águas do futuro Lago Paranoá começaram a subir, a vila foi desaparecendo.
Casas, estabelecimentos comerciais e estruturas utilizadas pelos trabalhadores ficaram para trás.
Parte dessas ruínas permanece no fundo do lago.
🌊 ANTES DO LAGO, HAVIA UM VALE
O Lago Paranoá que conhecemos hoje é artificial.
Sua formação começou com a construção de uma barragem no Rio Paranoá, no final da década de 1950.
Mas a ideia de criar um lago naquela região é muito mais antiga.
Registros da Comissão Exploradora do Planalto Central, no final do século XIX, já descreviam a existência de uma depressão natural que poderia ser ocupada pelas águas após o represamento do Rio Paranoá. O botânico e naturalista Auguste François Marie Glaziou registrou essa possibilidade durante as expedições que estudavam o território onde futuramente seria construída a nova capital.
Décadas depois, a ideia foi incorporada ao planejamento de Brasília.
No concurso do Plano Piloto, realizado em 1957, a criação do lago já fazia parte das premissas do projeto.
O lago teria uma função paisagística, ajudaria na composição urbana da nova capital e também estaria associado à produção de energia elétrica.
Ou seja:
o Lago Paranoá não apareceu por acaso.
Ele foi planejado antes mesmo de Brasília começar a tomar a forma que conhecemos.
👷♂️ E QUEM MORAVA ONDE HOJE ESTÁ A ÁGUA?
Durante a construção de Brasília, milhares de trabalhadores chegaram ao Planalto Central.
E eles precisavam morar em algum lugar.
Surgiram diversos acampamentos e vilas operárias próximos aos grandes canteiros de obras.
Uma delas era a Vila Amaury.
O local chegou a reunir cerca de 16 mil candangos e seus familiares, transformando-se praticamente em uma pequena cidade dentro da cidade que estava nascendo.
Havia ruas, comércio, bares, restaurantes e até espaços de lazer.
Não era simplesmente um conjunto de barracos.
Era uma comunidade formada por pessoas que estavam participando diretamente da construção da nova capital.

🏗️ A VILA JÁ NASCEU SABENDO QUE SERIA SUBMERSA
Aqui está uma das partes mais curiosas dessa história.
A Vila Amaury estava localizada justamente em uma área que seria atingida pela formação do Lago Paranoá.
Ou seja, o destino daquela comunidade já estava ligado à construção da barragem.
Enquanto a obra avançava, os moradores precisariam deixar o local.
O problema é que, quando chegou a hora, nem todos acreditavam que a água realmente tomaria conta da vila.
Segundo relatos históricos reunidos pelo projeto Histórias de Brasília, muitos moradores resistiram inicialmente à saída porque não acreditavam que suas casas seriam efetivamente cobertas pela água.
Até que a água começou a subir.
💧 A ÁGUA COMEÇOU A TOMAR AS RUAS
Em 1959, a barragem foi concluída e começou a formação do Lago Paranoá.
O processo não aconteceu de uma hora para outra.
A água foi avançando gradualmente sobre a área ocupada pela Vila Amaury.
Mas chegou um momento em que não havia mais como permanecer.
A Novacap precisou retirar os moradores.
E, segundo relatos históricos, a retirada aconteceu de forma apressada.
Muitas estruturas acabaram ficando para trás.
A vila que havia sido construída para abrigar os trabalhadores que erguiam Brasília estava prestes a desaparecer.
Só que, desta vez, não seria demolida.
Seria coberta pela água.
🏠 CASAS, COMÉRCIOS E OBJETOS FICARAM NO FUNDO
É justamente aqui que nasce a famosa história da “cidade submersa”.
Relatos sobre a Vila Amaury apontam que estruturas e objetos permaneceram no local depois da inundação.
Pesquisas e reportagens sobre o sítio submerso mencionam restos de construções, escadarias, fundações e objetos associados à antiga comunidade.
Ao longo das décadas, mergulhadores passaram a explorar a região em busca dessas marcas do passado.
O que existe hoje não é uma cidade intacta esperando ser descoberta.
São vestígios e ruínas de uma antiga comunidade, preservados debaixo d’água em diferentes condições.
Por isso, chamar o local de “cidade submersa” é uma forma popular de contar a história — mas historicamente é mais preciso falar em Vila Amaury e suas ruínas submersas.
🚧 A BARRAGEM QUE MUDOU A PAISAGEM
A construção da barragem começou no final de 1957.
O Rio Paranoá foi desviado para permitir o avanço das obras.
A barragem foi concluída em 1959 e então começou a formação do lago.
O projeto envolveu diversas empresas, entre elas Planalto, Portuária, CCBE, Camargo Corrêa, Rodobrás e Geotec.
A própria documentação do Arquivo Público do Distrito Federal registra que, durante as obras, foram instaladas pedreiras para obter materiais como areia, cascalho e brita.
A barragem possui aproximadamente 630 metros de extensão, sendo 600 metros em terra e 30 metros em concreto, e cerca de 48 metros de altura.
⚡ O LAGO NÃO FOI CRIADO APENAS PARA FICAR BONITO
Hoje, muita gente associa o Lago Paranoá principalmente ao lazer.
Mas sua criação tinha objetivos muito mais amplos.
O projeto estava relacionado à necessidade de energia elétrica para a nova capital e também tinha uma importante função paisagística.
A ideia era que o lago ajudasse a compor a nova cidade e criasse uma área de lazer e contemplação.
O que acabou acontecendo foi ainda maior.
O Lago Paranoá se tornou um dos principais elementos da identidade visual de Brasília.
🌉 E AS PONTES AINDA NEM EXISTIAM
Existe outro detalhe interessante.
No início de Brasília, atravessar de um lado para outro do lago não era como hoje.
As pontes foram construídas posteriormente e ajudaram a consolidar a ocupação das regiões que hoje conhecemos como Lago Sul e Lago Norte.
A primeira ponte sobre o Lago Paranoá foi a Ponte das Garças, inaugurada em 1974.
Dois anos depois, em 1976, foi concluída a ponte que hoje leva o nome de Ponte Honestino Guimarães, projetada por Oscar Niemeyer.
Ou seja, a Brasília que conhecemos hoje foi se construindo aos poucos ao redor de um lago que, no começo, era uma enorme transformação na paisagem.
🏙️ E A VILA DO PARANOÁ?
A história fica ainda mais interessante porque existe uma relação direta entre os acampamentos da construção da barragem e a formação da atual região do Paranoá.
O Arquivo Público do DF registra que um acampamento foi criado em 1957 para abrigar trabalhadores e engenheiros da construção da barragem.
À medida que as obras avançavam e a área original seria atingida pela água, o acampamento foi sendo transferido para cotas mais altas.
Essa ocupação deu origem posteriormente à Vila do Paranoá, em uma área onde hoje está o Parque Ecológico do Paranoá.
Assim, a história do lago também está diretamente ligada à história de uma das regiões tradicionais do Distrito Federal.
🤿 EXISTE MESMO UMA “CIDADE” NO FUNDO DO LAGO?
Essa é provavelmente a pergunta que todo mundo faz.
A resposta precisa de uma pequena correção:
não existe uma cidade intacta debaixo do Lago Paranoá.
O que existe são vestígios da antiga Vila Amaury, que foi inundada durante a formação do lago.
As condições de preservação variam e o local não deve ser tratado como se fosse uma cidade congelada no tempo.
Mas as ruínas são importantes porque representam um capítulo da história dos trabalhadores que participaram da construção de Brasília.
❤️ UMA HISTÓRIA QUE FICOU DEBAIXO D’ÁGUA
Quando Brasília foi inaugurada, em 1960, o Lago Paranoá já fazia parte da paisagem da nova capital.
Para quem nasceu depois, parece que ele sempre esteve ali.
Mas não esteve.
Antes do lago havia um vale.
Antes das pontes havia caminhos de terra.
Antes dos clubes havia comunidades de trabalhadores.
Antes das lanchas havia uma vila.
E antes de Brasília existir como cidade, já havia pessoas vivendo e trabalhando naquele território.
A Vila Amaury acabou desaparecendo sob as águas, mas sua história permaneceu.
Hoje, quando alguém olha para o Lago Paranoá e vê o reflexo do céu, os prédios, as pontes ou uma lancha cruzando a água, existe uma história muito mais antiga escondida naquele cenário.
🌊 DEBAIXO DO LAGO PARANOÁ, NÃO ESTÁ APENAS ÁGUA.
ESTÁ PARTE DA MEMÓRIA DE QUEM CONSTRUIU BRASÍLIA.
E talvez essa seja uma das maiores curiosidades da capital:
uma cidade construída para representar o futuro também guarda parte do seu passado debaixo d’água.


